quarta-feira, 26 de novembro de 2008

(Neo) Deal

Os olhos de Roosevelt saltariam para fora se ele visse a nota preta que está sendo solta para recuperar o sistema financeiro. Essa semana novo plano foi lançado para combater na outra ponta: manter o nível de consumo, através do crédito, e do emprego, através de créditos a montadoras e outros setores que os políticos gostam. O total gasto pelas economias mundiais já passa de 8 trilhões de dólares. Todos os governos se sentem na obrigação de fazer alguma coisa, temendo serem culpados futuramente por uma possível omissão.



















`A época de Roosevelt, é verdade, houve grande crescimento da dívida dos EUA, apesar dele ser preocupado com isso. Estou procurando dados mais confiáveis, mas por enquanto eu achei esse gráfico na Wikipédia. Vê-se que o grande salto na dívida se dá a partir de 43, chegando a ser mais de 100%... Lá também tem várias fotos do período.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Considerações sobre uma crise financeira

A crise que começou no início de 2008 e desencadeou-se de forma definitiva a partir de agosto queimou grande parte do capital do sistema financeiro, além de ter provocado uma retração geral no crédito, situação de redução de liquidez. Está sendo a mais grave dos últimos 80 anos, com recessão nos EUA e Europa e a maré (tsunami) ruim chegando aos países subdesenvolvidos aos poucos, trazendo péssimas notícias para as contas nacionais devido a uma retração do capital internacional nas várias frentes, em um efeito cascata. O crescimento escandaloso dos últimos anos no entanto foi conduzido por forte boom econômico de países subdesenvolvidos, como os BRICs e em especial a China. Esses países continuam em geral em uma trajetória de crescimento, apesar de reverem as projeções. A questão é que os grandes prejudicados com toda crise serão, como em toda mudança internacional, os países pequenos e pobres, dependentes da demanda internacional por matérias-primas. Eles sofrerão todo o impacto da crise com a redução dos preços, e nada poderão fazer para detê-la, empobrecendo ainda mais. São países em geral da África, Ásia e América Central.
Se a crise marca um processo de multipolarização política e econômica, isso será no âmbito do G20, que contam com a maioria da população da Terra (só China e índia contam com uns 30% eu acho...) e do PIB, mas afinal são apenas 20 países, ou 10% deles aproximadamente. Uma multipolarização não implica em nenhum pólo como são países como Brasil e China.
Liquidez_ O fato é que se os efeitos do setor financeiro na economia real fossem mais rápidos como eram entes, a crise que se seguiria seria muito pior do que a grande depressão. Ou em outras palavras, o baque do crash de 29 foi sentido com muito mais força pela economia real, com falência de milhares de bancos e desemprego galopante com deflação, diferentemente de hoje em dia, pois o crescimento dos derivativos nos últimos anos permitiu que se fizesse um colchão de liquidez, onde muita gordura de excessos no setor financeiro pudesse ser queimada até se chegar ao consumo real das pessoas. O processo de securitização dos últimos anos não foi de todo inútil. Ao criar penduricalhos inúteis de salvaguardas nas transações, ele permitiu a criação de novas transações que em momento de insegurança podem (e devem , por ser mais inúteis) ser eliminadas, portanto, comparar os níveis atuais de produção e consumo com o ápice não faz sentido. Ninguém estava sendo enganado nos subprimes, a questão é que se tinha uma vaca – e não mais uma bolha – em regime de engorda: agora, todos querem comê-la ao mesmo tempo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Estabilidade institucional é um sonho cada vez mais alto na Argentina

Senado aprova nacionalização da previdência na Argentina , uma lei que coloca novas incertezas sobre o futuro do país, apesar de que não se pode tomar a medida pelo seu lado símbolico, como uma simples estatização, pois não se sabe como funcionavam esses fundos de pensão. De toda forma, a mensagem econômica é muito clara: instabilidade política e falta de previsibilidade.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/11/081121_previdencia_argentina_mc_cq.shtml

"A nova lei, que elimina as chamadas AFJPs (Administradoras de Fundos de Pensões e de Aposentadorias), prevê a transferência de cerca de US$ 25 bilhões para os cofres da Anses (a previdência estatal).

Há um mês, quando a nacionalização foi anunciada, este valor estava em torno dos US$ 30 bilhões, mas a queda nas ações e títulos públicos onde os recursos estavam aplicados reduziu o capital.

Além destes recursos, estima-se que outros US$ 8 bilhões vão engordar, por ano, os cofres oficiais.

A nacionalização permitirá que o governo tenha ações em empresas privadas de diferentes setores, como de telecomunicações, imprensa e construção, entre outros. A transferência das AFJPs para a Anses deverá entrar em vigor em janeiro.

(...)

O fim da previdência privada provocou protestos, contra e a favor da medida, em frente ao Congresso Nacional.

Empresários criticaram a medida e questionaram se a segurança jurídica seria respeitada no país, como destacaram integrantes da Associação de Dirigentes de Empresas.

Em entrevista à emissora TN (Todo Notícias), o presidente da Fiat, Cristiano Rattazzi, afirmou que "o confisco das AFJPs gerou uma série de preocupações, além de tirar a liquidez do mercado local".

Por sua vez, o senador Ernesto Sanz, da opositora UCR (União Cívica Radical), disse que a nacionalização é "uma violação ao direito de propriedade privada das AFJPs e dos contribuintes".

Os recursos das AFJPs eram usados como base para créditos de eletrodomésticos. Empresários e consumidores temem que estas vendas sejam afetadas.

"O que vai acontecer de agora em diante? Sabemos que estamos em tempos de incertezas no país. As empresas atuam com cautela, com preocupação. Já tivemos esse ano uma crise, mais grave que esta (quando os fazendeiros realizaram locaute) e agora o governo precisa deixar algumas coisas claras para reduzir essas incertezas", afirmou o comentarista econômico do canal 13, Marcelo Bonelli.

Uma das preocupações é que a medida contribua para gerar desconfiança de longo prazo para com o país, que desde o default da dívida, em 2001, tem dificuldades de crédito internacional. "

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sistema bancário

O que a informação assimétrica tem a ver com o sistema bancário? O que ocorre é que as negociações financeiras tem uma característica temporal importante, e os agentes assinam contratos pensando em taxas de inflação e de juros. Nessas escolhas intertemporais, o agente assume riscos, e as incertezas em relação ao futuro são como distorções nos preços reais ou nos custos de oportunidade da ação. O spread bancário é a diferença entre a taxa de juros da janela de redesconto, a taxa pela qual o Banco Central empresta ao sistema privado, e a taxa pela qual o banco empresta para os agentes econômicos. Altos spreads como nós temos, devido à demora judicial na execução de sentenças ligadas à execução de dívidas,além do alto grau endividamento do governo e uma ineficiência geral do sistema, entre outros motivos, pressionam as taxas de juros reais para cima.
Quanto maior a chance o cliente do cliente não pagar, maior a taxa de juros para compensar uma possível perda (de forma a diluir os custos de uma inadimplência). Imagine umja lanchonete que fornece a comida ao cliente antes que ele pague. Se o cliente passar a roubar e não pagar pelo lanche, o empresário terá duas opções: aumentar a fiscalização ou aumentar o preço do lanche, para que aqueles honestos paguem por quem não compra (ou vender a lanchonete e aplicar no sistema financeiro). Agora, isso pode aumentar os "roubos"...
Esses são custos implícitos, custos de oportunidade, chamados pela teoria econômica de custos de transação, ligados à dificuldade de se fazer valer um contrato. Até aí tudo bem: os custos de transação podem inviabilizar as relações econômicas, mas por outro lado sempre haverá algo a melhorar. O que importa é que os custos de transação podem ser sistematizados dentro de determinado nível, em um arcabouço matemático e estatístico, de modo que as soluções sejam sempre melhorias de Pareto.
A informação assimétrica pode ser vista apenas como uma pequena pertubação em um equilíbrio homogêneo dos agentes, de modo que a economia se mantém em um nível de eficiência abaixo do seu potencial. Por outro lado, falhas como informação assimétrica, que podem ser colocadas em um arcabouço maior de custos de transação, podem ser completamente desestruturalizantes,e não apenas condicionantes, como nos mostra a atual crise financeira.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Conceito: Informação assimétrica

A informação assimétrica é uma falha de mercado clássica para a teoria econômica. A sua ocorrência implica que as informações, que podem ser consideradas fator de produção, não se distribuem de modo homogêneo pela economia, havendo a concentração ou monopolização delas. A informação sobre a propensão a consumir é, naturalmente, dos consumidores, e os empresários tentam prevê-la na hora de produzir.
Os agentes precisam ter conhecimento das reais ações dos outros agentes se elas influenciam seu bem estar; principalmente, é necessária uma certa estabilidade, institucional inclusive, o que significa demarcação de regras claras para que os agentes possam fazer uma estimativa acerca do futuro. O axioma mais usado em relação a essa previsão é de que o indivíduo tem expectativas racionais, sendo capaz de endogeneizar os resultados passados. Por exemplo, com inflação alta no ano passado o agente tende a supor uma inflação relativamente mais alta esse ano, o que geralmente levará a uma taxa real efetivamente elevada.
A informação assimétrica é usualmente pensada em termos de seleção adversa e risco moral. A primeira se refere a uma seleção automática de produtos, na venda ou na compra, se não houver uma informação completa. O exemplo clássico é o de mercado de carros: vendedores de carros indiferenciados colocarão preços diferentes em seus carros. No entanto, um consumidor relutará em pagar um alto preço por um carro, pois ele não saberá se realmente é um carro bom, ou não. Ao mesmo tempo, os vendedores poderão tentar realmente "enganar" o consumidor subindo um pouco os preços, já que ele não sabe que o carro é ruim. O fato é que o consumidor vai oferecer um valor em geral menor que o dono de um carro bom está disposto a vendê-lo. Então o consumidor vai ter a certeza que comprará um carro ruim, a um valor acima do que estava disposto. Com isso, todo o mercado fica comprometido.

Enquanto isso, na Califórnia...

Enquanto o governo dos EUA vacila em agir depois da crise para conter a expansão da produção de casas, que em setembro, o pior mês em 17 anos, estava em um ritmo anualizado de 1.000.000 de casas, a natureza faz sua parte. Muitas casas queimam como palha em incêndio na Califórnia, inclusive casas com valor de milhões de dólares e muitas vezes de uma celebridade de Hollywood, em uma combinação que repete de fogo e vento forte. Aliás, não seria uma medida mais eficiente na atual crise "queimar" o excesso de casas para sustentar o preço, como Getulio Vargas fez com o nosso cafe?? É impossível para um presidente mandar destruir casas em um país cheio de desabrigados, mas a impressão que fica é que alguns desastres, nem sempre naturais, podem ser bons ou mesmo fornecer lições para a economia americana,mesmo que as mansões das celebridades não sejam o foco dos problemas atuais (não que elas não sejam ociosas...). Mas não está precisando mesmo de um pouco de fogo para "queimar" o excesso de casas, livrando os políticos dessa funcão?


CASAS ARDENDO EM CHAMAS NA CALIFÓRNICA (fonte: nytimes)